1.
Plaquemines, 16,5 pés

telhado descambado, que o pé magnólia seco mal ampara, lambe o pátio como uma língua escamosa. Por baixo é areia, lama, cacos, plástico. As colunas de madeira, que já nada sustentam, estão partidas, em ramalhetes de farpas. A haste principal, debruada de papeizinhos. Fotos, bilhetes, notícias, desenhos, “procura-se”, “perdeu-se”, “vende-se”. “Miss U”, “RIP”, “4EVER IN OUR ♡” e Jesus em sortidas invocações. Em um guardanapo, um versículo rabiscado: “Pois que não temos um Pai tão forte que não sinta a aflição de nossas dores. Hb 4:15”.  Uma foto de um menininho de olhos arregalados, dois números próximos demais: “*2002 †2005, Kevin Brandon Montague”. Penso que Kevin Brandon Montague, se não tivesse sido engolido por uma torrente enlameada, teria a mesma idade das adolescentes que riem aos berros, atrás de mim, na fila para entrar no Plaquemine Parish People’s Hurricane Katrina Memorial Center.

Aqui a tragédia é útil, por didática. Cenografia do horror com propósitos políticos.

Na primeira sala, um crucifixo, uma cruz de laca roxa de onde pendia a única parte do messias poupada pela lama: a mão direita pregada, o braço esquálido e um omoplata roto. O outro braço da cruz envergava um colar de contas roxas, amarelas e verdes, como as  que se jogam no pescoço das mulheres para que exibam os seios na terça-feira gorda. A tétrica composição (de acordo com a placa) era espontânea, foi encontrada desse jeito, quando a água enfim  baixou, fincada à beira do Lago Portchatrain — talvez resposta zombeteira à cruz do World Trade Center.

“Mr. Silviro?”

Miss Petit-Whiters me olhava com apressada eficiência. Nem tão gorda, nem tão negra, o cabelo arquitetado em volutas. E decepcionada comigo. Fosse eu mais velho ou mas escuro talvez passasse em seu critério.

“Por favor me chame de Djouliou”, peço. O canto de sua boca permanece plissado em reprovação. Insisto: que me sentia tocado por seu trabalho e por tudo o que ela fizera.

“Eu não fiz nada, mr. Silviró. Exatamente como o governo. Não fez nada para prever isso e certamente não fez nada para lidar com isso. Nada. Esse é o nosso trabalho, mr. Silvairou. Mostrar como o nada dói.”

Inegociável, Mrs. P-W expele-me da área “de exposição” — onde o desastre foi congelado para a posteridade — em direção às escadas. Pareceu-me prudente que os escritórios do “Centro Memorial da Enchente do Povo de Nova Orleãs na Paróquia de Plaquemine” ficassem sobre palafitas, a bons cinco metros do chão (o nível da lama preservado, uma placa registrando os 16,5 pés em 31 de outubro de 2005). Essa é só mais uma das diferenças relação ao Memorial “Oficial”, construído pela prefeitura na Jackson Square (onde os turistas do trágico podem assistir videos sobre a devastação antes de zanzar pela praça tirando a sorte com as cartomantes e jogar moedas para bluesmen postiços nas calçadas), no incólume Quarteirão Francês. Aqui, na periferia de Nova Orleãs, na paróquia de Plaquemines, onde franceses primeiro festejaram o Mardi Gras, e onde o furacão foi especialmente cruento  (no que pastores apocalípticos veem uma causa e uma consequência), não há turistas. Fotos de policiais brancos batendo em negros. E de corpos cinza. Aqui as pessoas não vinham para ver a dor. Vinham para mostrá-la.

Mas eu não vim nem para ver nem para mostrar. Estou em busca de Mo’.

“Minha mãe está ali, na sala dos fundos”, aponta para o fim do corredor bege, sentenciando: “O senhor tem meia hora”.

É pouco tempo para quem vem de tão longe, como eu, mas minha entrevistada parece ter menos tempo ainda. De vida. Miúda e murcha, ralos cabelos azulados, puxados heroicamente em coque, pele sarapintada querendo desgrudar da caveira, amarrada em um bolero de cor cinza azulado que fazia pendant com os olhos glaucomatosos. Dizer que Delilah Petite estava viva é quase uma imprecisão. Porém estar com ela é o mais próximo que eu posso chegar de Mo’ Desmond.

Aperto o “Rec” já sem esperanças. Ela começa a entoar, um murmúrio roufenho, assim que estalo o botão do gravador. Quando meus ouvidos reconhecem, no meio do pigarro, a melodia, entro no contracanto.


Came on lie to me Miss Leena

Could you live with this dear

I shall love you dearly, see

But you’re meant to do this

 

“Não, não é assim. Está errado.” [Tosse] “Mas não se machuque tentando. Ninguém conseguia.” [Mais tosse] “Só eu”. [Gargalhada ou falta de ar].

 

Dalilah Petite foi episodicamente conhecida como “the Best Gumbo on Place Congo” ou “Le Lilas du Marais” e, evidentemente, muitos veem nela a própria Miss Leena (ela confirma ou refuta, de acordo com sua comodidade). Porém não interessa aqui se ela foi ou não o melhor Gumbo ou a Lilás do Brejo. Para meus fins, ela era a principal intéprete e musa absoluta de Mo’ Desmond. Também seria a única mulher que Desmond amou na vida. E com certo grau de certeza pode-se acrescentar que Delilah Petite foi a única mulher com quem Mo’ Desmond fez sexo.

A frequência sexual de Mo’ é um dos muitos fatos que eu tenho esperança de esclarecer com Delilah, mas vejo com ansiedade a somítica senhora gastar a maior parte dos meus caros 30 minutos estipulados por Miss P-W com fragmentos desconexos que vai babando no gravador, talvez excitada por estar, depois de tanto tempo, de novo na presença de um microfone (e de um homem). Muitos adjetivos, alguns substantivos, nenhuma gramática. Dentre o que a nonagenária Delilah pode ou não ter vivido (ou dito) está alguma coisa sobre Koko Taylor ter roubado ou fodido uma amiga de Etta James. Também e viável que ela esteja dizendo que Koko Taylor fodeu Etta James, vá saber. No errático trem do pensamento de Delilah embarca e desembarca constantemente um certo Brian ou Ryan com quem ela teria se casado e tido uma filha a qual teria espancado, ou então o tal kid que apanhava era ela mesma. De qualquer modo, em seguida Brian ou Ryan estaria com Dean Martin roubando cassinos em Las Vegas e aí eu acho razoável inferir que Delilah Petite está pensando em Sammy Davis Junior.

Pouco ou nada apuro sobre o objeto do meu estudo, porque sempre que sugiro o monossílabo “Mo’”, Dalilah [(Eva Marie) Petite, cantora nascida em DeQuincy, Louisiana em 1916 e ainda viva, contra todas as probabilidades] aponta seus olhinhos cinzentos para um ponto abstrato e contempla o infocável, gastando meus minutos e murmurando repetidamente “Mo’…”, “Mo’”, um eventual “porque é que teve que ser assim?” e um conclusivo “Motherfucker!”.

No próximo capítulo: Na origem de Mo’, digressões com o pianista cego.