168 East 32nd Street

 

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NÃO ENCONTREI A CARA AZEDA do referido fode-mãe em nenhuma das 25.000 páginas do The New Grove Dictionary of Music and Musicians. Também nada encontrei nos 3 volumes do mais específico The New Grove Dictionary of Jazz. Mo’ Desmond destaca-se por sua ausência  também no Oxford Companion to Jazz. Mo’ teria mesmo existido?

Achei.

“Perdue.”

Penguin Guide to Jazz Recordings, na edição de 1973, fala de um certo “Maurice Perdue” que teria uma participação não creditada em um disco de Lennie Tristano. Esse senhor Maurice Perdue é aquele que, em seguida, encurtou o nome para “Mo'” e obliterou o sobrenome, em favor do nome do meio, “Desmond” — Mo’ Desmond, Mon Monde, Maior do Mundo, Meu desmundo.

A página 258 provava que existiu Mo’ Desmond, e ainda trazia mesmo uma foto — um canto de uma foto. Os pontos enormes da calcografia que ocupavam a diminuta polegada quadrada da imagem deixavam a maior parte do trabalho descritivo à imaginação do leitor e eu imagino que Desmond era um sujeito empertigado. Mulato ou negro claro a ponto de ser possível discernir suas feições (outro retrato na mesma página de um cantor mais negro era um borrão com olhos e dentes). Tinha o cabelo liso ou alisado, uma mecha meticulosa sobre a testa. Lembrava um Nat King Cole pálido e contrariado. Ou um gêmeo malvado do Cab Calloway. Mesmo naquele cantinho de página, parecia olhar o leitor de alto a baixo. Não era sua melhor fotografia, suponho (e isso considerando que as outras únicas duas fotos que encontrei são mug-shots de delegacia).

O Penguin Guid informa que Desmond/Perdue foi considerado “a frente de seu tempo”, um “experimentador radical” e, mais frequentemente, “um alucinado”. O livro registra algumas participações de Mo’ em discos de Joe Pass e Art Pepper nos anos 1960, ocasionais “dificuldades” com a justiça por conta de drogas, e que não se tem notícias para onde foi daí. Tampouco se sabe de onde veio.

Para mim, Mo’ não veio. Passou a existir quando entrou no casa/estudio de Lennie Tristano, 168 East 32nd Street.

 

 

“Você tem toda a razão, Lennie Tristano!”

O pianista pôs o dedo sobre a agulha do metrônomo, e perguntou a seu aluno quem era a voz. O rapaz, satisfeito pela interrupção do exercício penoso, sussurrou que era um “nigger com um trompete, senhor”.

“Foi o que pensei”, disse o mestre. “Soa como um nigger com trompete. Você estava em dó menor, ele falou em lá sustenido. Azul para amarelo. Nada mal. Tente isso.”,  e soltou o dedo do metrônomo. O rapaz suspirou e voltou às teclas.

Muitos compassos depois, Lennie Tristano virou-se para o lado de onde tinha vindo a voz.

“Em que posso ajudá-lo, trompetista? E, mais importante, no que é que eu tenho razão?”

“Eu sou Mo’ Desmond. E assisti a seu show. E concordo”.

 

(Na noite anterior, assim que chegou à cidade, Mo’ foi assistir uma das raras apresentações de Lennie Tristano, na recém inaugurada Birdland. Para acordar o público encharcado de martinis, Lennie vez ou outra forçava-se a uma brincadeira, entre elas uma sátira ao então popular estilo scat do be-bop, ao som de “Let’s call the whole thing off”, que soava mais ou menos assim:
You say Bop-lab-bing-bong-da-da-daba-du-biri-boro-beng-bong-ping-ping-chewing-gum, I say Labapbop-tung-teng-ping-pong-hang-tang-ching-chang-chop-shuey-pork-chopp-gang-bang-big-ball.” e terminava com o pianista exangue, pedindo “let’s call the whole yabadabadubapobboprebobarribaarribachangbenloolayabatubat-tubapt-bop-a-duda-bin-bing-BING-BOP — damm’it! — OFF.)
Era uma piada um tanto forçada que destoava do resto da apresentação extra-cool do pianista. E, mais grave, o que era apenas uma rotina cômica levou Mo’ Desmond a considerar a sério que Tristano era um detrator do BeBop. Isto é, um companheiro de armas. Ou alguém com quem ele pode falar (mal) do BeBop.

O maestro estava num de seus melhores dias e deixou o petulante Mo’ falar, botar a mágoa para fora. Ouviu sua peroração em prol do jazz puro, o jazz cristalino, a maestria de um som lapidado delicada e cuidadosamente, o tecido harmônico e o cerzido melódico. E sua crítica angustiada ao BeBop e a todos que queriam transformar o jazz em uma gagueira apoplética, como o execrável Clark Terry, e esse irresponsável do Miles Davis. Não tinham respeito pelo instrumento!

“Afinal, você veio aqui na escola para aprender a tocar alguma coisa, kid?”

“Eu sou trompetista. E há muito deixei de ser garoto.”

 

Assim começou uma relação (amizade?) intensa e assimétrica entre o petulante trompetista e o pianista tranquilo.

Um dos mais recorrentes adjetivos ligados a Lennie Tristano é overlooked. “Sobrevisto”, alguém a quem não se viu com a necessária atenção. Alguém a quem se viu, de relance, mas a quem não se enxergou com o devido cuidado. Alguém que se dedicasse a ver a escassa obra do pianista italo-americano enxergaria uma grata combinação de rigor técnico com coragem inovativa. Enxergaria um pianista de concerto, cria do imaculado Conservatório de Chicago, que ousava com os parcos recursos técnicos da época, alterando a velocidade da gravação e sobrepondo overdubs, como na faixa que tem por título o endereço de seu encontro com Mo’: East 32 street. Se era um artista à frente de seu tempo, hoje esse pianista — que ficou cego aos quatro anos de idade e passou a vida tentando reproduzir nas notas sua lembrança das cores —  é “sobrevisto”.

Na virada para a década de 1950, Lennie Tristano tinha desacelerado seu lado concertista para se concentrar em seu lado de professor, garantir uma renda mais estável e salvar seu casamento. À época da visita de Mo’, nada estava dando muito certo: a Tristano School of Jazz estava para se mudar para o Queens e a senhora Tristano já tinha trocado a fechadura de casa. Sorte para a Música. Sem ter que voltar para casa para a patroa, Tristano passou aquele inverno desmontando a escola e varando a noite em tertúlias musicais com seus alunos queridos. E com Mo’ Desmond. Com Mo’, Tristano sabia que a pegada era diferente. Com Mo’ era mais “cerebral”. Nada de grandes arroubos improvisatórios e emotivos. Em compensação, Mo’ retribuía em seu trompete soluções melódicas ríspidas e imbricadas, elegantes como um arabesco e eficientes como um algoritmo. A melodia funcionava. O professor montava armadilhas harmônicas. Mo’ resolvia a música. Lennie se empolgava, sentava ao piano e arava as teclas em acordes inusitados para as frases que Mo’ jorrava em seu trompete e gargalhava a cada drible sonoro que levava do “kid”. E ria, e comemorava com copos seguidos de bourbon.

Enquanto o pianista cego bebia sorrindo, o trompetista negro o encarava a seco. Já tinha calculado que seu mentor estava para traí-lo…