Intuição, digressão, depressão

 

Antes de abandonar Lennie Tristano, a senhora Tristano costumava manter vasinhos e manjericão pelos corredores da casa da East 32nd Street. O cheiro verde ajudava o marido cego a achar o caminho. [Em 1923, a mãe de Tristano lavava os olhos do menino com manjericão, tentando retardar a cegueira e dar ao menino o tempo ao menos de ele conhecer as cores]. Mo’ matava os pés de manjericão com as bitucas acesas de seus Chesterfields.

Naquelas noites ruidosas, quando a casa era ocupada por músicos, cozinhava-se o rancor de Mo’ contra o que ele chamava de “traição” de Tristano. Para seu horror ou ciúme, Lennie Tristano passou a frequentar os mesmos palcos e bares ds eminências do bebop. E logo passou a ser também frequentado por eles. Mesmo sua santidade Dizzy Gillespie veio uma noite malsã arrancar Lennie de Mo’ para com ele trocar suas quiálteras e inflar suas bochechas disformes. E esse dueto Tristano-Gillespie atravessou o coração empoeirado de Mo’ Desmond.

Tudo porque o trompetista acreditava que Lennie seria o profeta de uma certa “Tristano School”, solene academia, bastião dos acordes e das regras lapidares de harmonia que garantiam aos solistas uma trama segura sobre o qual cerzir suas melodias. E, para Mo’ Desmond, estaria escrito nos estatutos da tal escola que os tristanistas haviam jurado de morte os bebopistas. 

Na verdade tal “escola” só existia nas mirabolações de Mo’, que a construíra como uma expressão de seu ódio visceral contra  a libertina “escola” do Bebop, onde mestres e alunos competiam desenfreadamente aviltando harmonia, melodia, ritmo — e o bom gosto. Mas a verdade que Mo’ não via é que o cego Tristano não queria despeitar ou contrapor-se a nada, muito menos quando suas aventuras no campo do Bebop estavam lhe trazendo algumas gramas de fama.

Porém se não houvesse mais a “Tristano school”, Mo’ Desmond não poderia ser o seu bedel e nem lançar as bases para a futura, brilhante e invejada “Mo’ Desmond School”! E isso era uma rachadura na torre da glória erguida na imaginação de Mo’ Desmond.

O fim começou quando alguns dos mais frequentes habitués da casa da 32nd street se aglutinaram no Septeto Tristano, com o qual o mestre promoveria em LP o début de alguns de seus alunos e discípulos: os memoráveis saxofonistas Lee Konitz e Warne Marsh eram dois deles. O esquecido trumpetista Mo’ Desmond era outro.

Tudo ia morno e seguro nos primeiros ensaios. Canções feijão-com-arroz salvas da mesmice pelas brilhantes linhas melódicas originais de Desmond, Konitz e Marsh. Tristano feliz e alheio a tudo em seu mundo escuro de sons coloridos. Desmond satisfeito: até a última semifusa comportadinha na pauta. O cool imperava.

A música do Septeto começou a dissonar para Desmond quando o consumo de Bourbon e a intimidade forjada nas madrugadas no estúdio criaram as condições para a gravação de duas faixas cujos título em si já eram uma afronta. “Intuition” e “Digression”.

Para Desmond, eram dois longos pesadelos sonoros em irrestrita fúria de melodia, harmonia e ritmos que cavoucavam o tímpano dos incautos e escavacavam as fundações do que Desmond conhecia por Música com M maiúsculo.

Quando finalmente foi lançado o LP, Tristano e seus rapazes haviam colocado a pedra fundamental do tal “free jazz”, sobre a qual por décadas seguintes músicos de todos os matizes ergueriam suas estranhas catedrais. Mas na capa do disco e nos créditos o Lennie Tristano Septeto já havia minguado para Sexteto. Desmond estava fora, se fôra…

Desmond não podia endossar aquela condenação à liberdade. Nada de intuição ou digressão para ele. No verso do disco, a foto foi podada para retirá-lo de cena e mostrava só seu ex-colegas e então desafetos. Quem encarasse aqueles branquelas engalanados — em especial o baixista careca Arnold Fishkin — podia jurar que com aquela escassez de melanina não poderia haver swing. Mal sabiam que o único negro entre os músicos havia abandonado o grupo por “divergências criativas”, eufemismo para mais de um copo estilhaçado no chão, mais de uma ameaça de porrada entre membros do septeto, contidas pelos cinco remanescentes. Mo’ tinha mais que divergência com a criatividade: tinha horror pelo improviso e por todo impulso que não fosse previamente decantado pelo intelecto, arquitetado, construído.

Desmond estava arrasado. Não só falhara em fomentar a “Tristano School” com seus sacramentos espartanos e torna-la o bastião anti-Bebop quanto ainda contribuíra para o nascimento da besta blasfema chamada “Free” Jazz.

 

Esse podia ser a coda e o fade out para Mo’ Desmond. Sua vida pública terminaria aqui, ele nunca teria escrito a canção que o alçou ao estrelato e nem as músicas que o catapultaram para o anonimato. Morreria e voltaria ao pó de onde nunca deveria ter saído, os cafundós dos bayous de Nova Orleãs. E eu estaria em casa, ouvindo alguma coisa anódina e cuidando da minha samambaia ao invés de estar aqui nessa saleta cinzenta diante dessa figura que é de interesse exclusivo da gerontologia. Mas sem essa hoje decrépita senhora chamada Delilah Petite, não haveria Mo’ e ninguém ouviria “Lie to me Leena” (e muitos elevadores ficariam em silêncio constrangedor).