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O homem em rede nunca se prende

O que o netativismo quer é uma cyberdemocracia

Publishnews, 20 de junho de 2013

Na quarta à noite corri de bombas de gás lacrimogêneo na avenida Paulista. Por razões nada heroicas e puramente circunstanciais. Fui convidado para o Congresso Internacional do Livro Digital da CBL, e tanto o Congresso quanto o hotel, além do bar onde fui “jantar”, ficavam no eixo da Paulista. Fui obrigado a cruzar a avenida, àquela hora, um errático campo de uma batalha cuja causa e razão ainda não entendemos.

Na manhã seguinte mediei uma conversa sobre o “ser digital”. Sendo a plateia composta de editores, eu deveria encaminhar a mesa para o comportamento (de consumo) desse novo “ser”, os migrantes e nativos digitais, leitores e compradores de eBooks. Não havia, no entanto, como contornar o grande assunto: a cidade entrando em convulsão. Por sorte e honra, a mesa era composta pelos bravissimi professores Massimo di Felice e Mario Pireddu, que vêm refletindo sobre a relação entre o homem e a tecnologia — sobre como a internet vem expandindo a capacidade de comunicação e interação do indivíduo, e as transformações na sociedade provocadas por esse novo “homem reticular”. Suas reflexões não poderiam ser mais pertinentes para entendermos (ou tentarmos) as “manifestações” que ocupam as ruas do país, e que têm deixado cientistas políticos e outros pitaqueiros perplexos.

Massimo di Felice, já em 2008 dizia que “desde a Grécia antiga as informações chegam por via analógica, unidirecionada. Há um emissor, uma mensagem, e um receptor.” São exemplos: um canal de televisão, um programa e uma audiência; um jornal, uma matéria e os assinantes; um livro, uma edição, um leitor. “Com a comunicação digital temos, pela primeira vez, uma forma de comunicação em rede onde todos os indivíduos são, ao mesmo tempo, emissores e receptores, todos nós podemos criar mensagens e distribuí-las em rede.” Quem acompanhou as manifestações pelo Facebook ou Twitter percebe a larga superioridade dessa nova forma de comunicação — em rede, para os lados— sobre a anterior — centralizada, de baixo para cima. Pela internet não só se acessavam as notícias antes que elas fossem “publicadas”, quanto se recebia uma profusão de pontos-de-vista, incluindo os que analisavam, e até desmoralizavam, o que dizia a titubeante mídia “tradicional”.

A instantaneidade da troca de informações e a multiplicidade de pontos de vista pode explicar uma nova e estranha característica nas manifestações: a falta de bandeiras, de lideranças, de agendas. McLuhan já dizia que quando todos estivessem conectados entre si, a “propaganda” (no sentido inglês) política perderia efeito. “O público, (ou a ‘opinião pública’) no sentido de um grande consenso de pontos de vista distintos acabou”, e ficou portanto difícil aglutinar, em uma grande e simplificadora causa, indivíduos interconectados que opinam e recebem opiniões imediatamente. “A política oferece respostas de ontem” (balizas do século 20, como “esquerda” e “direita”) “para perguntas de hoje”. Se não a política, quem teria as respostas para os problemas de hoje? A própria rede, talvez?

Massimo di Felice é (digamos) otimista. “A nova democracia muda completamente a forma de participação do indivíduo na sua cidade. A mídia de massa, analógica, fazia com que o indivíduo somente recebesse a informação e, portanto, e só se tornava ativo como cidadão na medida em que fosse informado pelas mídias, que era o instrumento que determinava a inclusão na esfera pública. A rede digital, a cyberdemocracia, cria uma outra forma de participação, completamente diferente. O indivíduo não somente usa a rede para acessar as informações, mas pode ser editor, criador de informações, além de fazer a sua distribuição na rede. Cria uma forma ativa de cidadania, uma forma de democracia direta.” As redes sociais cumpririam a profecia de Norberto Bobbio (em 1992), de que uma democracia plena e absoluta só existiria quando houvesse uma máquina pela qual “o indivíduo possa, com um simples apertar de um botão, distribuir o próprio parecer, a própria idéia, o próprio voto, em tempo real para a população inteira.”

Di Felice atesta que “democracia direta é hoje tecnologicamente possível.” A questão é saber se a queremos, ou se estamos preparados para ela. “A maior ameaça para a sociedade hoje chama-se mídia social”, disse o premier turco Erdogan, diante das multidões que cobriam Istambul, sintomaticamente confundindo “sociedade” com “Estado”. A “sociedade” — ou o que quer que se chame assim —, reagiu com o mesmo medo, e com violência variada, o Occupy Wall Street, as “Primaveras árabes” em Túnis, no Cairo e Damasco, o levante de Istambul e as Revoltas do Vinagre no Brasil. Vamos ver quantas mais revoluções “online” serão necessárias até que passemos para essa “cyberdemocracia”.

Já sabe-se porém que o fim desse mundo não vai passar na televisão.

Liberdade ou poder

Quando a informação é crime

Publishnews, 7 de junho de 2013

 

“Ler é poder” é bem mais que um slogan preguiçoso para campanhas de promoção do livro. O conhecimento obtido por meio do texto é, como disse Voltaire, como o fogo, e de fato pode conferir poder ao leitor, apoderá-lo. E esse poder ao leitor é muitas vezes obtido com a transferência, isto é, retirando-se poder de um grupo. É por isso que livros eram tão temidos pelos “poderosos”; por isso um livro para existir tinha até pouco tempo que conter as autorizações do Rei (“com privilégio de S. Majestade”) e da Igreja (“imprimatur, nihil obstat”). Foi preciso deflagrar um Estado sem Rei e sem Igreja — a França revolucionária — para que um texto tão poderoso e apoderador como “A Declaração dos Direitos do Homem” pudesse ser publicado, disseminado e promovesse revoluções mundo afora. Mesmo no Brasil, onde a imprensa era proibida, a “Declaração” incendiou ideias libertárias (em “Revoluções” e “Insurreições” logo massacradas).

A utopia da “República das Letras” — o acesso livre e completo ao conhecimento para todos — parece ter se concretizado, tecno-magicamente, com a internet. Ou parecia. McLuhan (sempre ele) já falava, há 50 anos, em como um mundo “circuitado”, onde as ideias circulassem sem barreiras de tempo e espaço, impediria a manipulação dos fatos pelo governo, o fascismo, a demagogia.

Portanto é tanto decepcionante quanto paradoxal que o país que deu ao mundo o poder livre à informação (internet) seja também rápido em condenar pessoas por exercer tal poder. Essa semana começou o julgamento que provavelmente condenará Brad Manning a passar o resto da vida na prisão. O crime do soldado de 22 anos foi publicar na internet um video de fuzileiros americanos matando civis iraquianos e jornalistas em uma “orgia de sangue” (desmentindo a versão oficial do governo dos Estados Unidos para o “incidente” ocorrido na “Operação Liberdade”). Manning ainda liberou ao público centenas de documentos “classificados”, por meio da Wikileaks, o grupo de radicais da informação que torna transparentes os segredos e conchavos dos governos. O líder da Wikileaks, Julian Assange, incriminado oficialmente por atentado ao pudor na Suécia, está há quase três anos refugiado na Embaixada do Equador em Londres.

Melhor sorte não teve Aaron Swartz. O brilhante programador tinha 26 anos quando enforcou-se, após ser condenado por “fraude eletrônica”. Oficialmente, seu crime foi criar um sistema que baixava e tornava público os artigos científicos de uma biblioteca acadêmica digital. Isto é, foi condenado por divulgação científica. O que incomodava os poderosos era, no entanto, seu ativismo cibernético. Ele foi o fundador do Watchdog.net, que agregava e publicava dados sobre os congressistas americanos; publicou um Manifesto da Guerrilha para o Acesso Livre e conduzia pesquisas sobre corrupção nos governos em Harvard (no laboratório custeado pelo bilionário brasileiro Edmond J. Safra). Era também um dos principais articulares contra o SOPA, a iniciativa do Congresso norte-americano de, a pretexto de combater a pirataria, “regular” a internet (para, de fato, controlá-la).

Se a SOPA tivesse sido implantada, talvez o caldo não estivesse entornando agora em Istanbul, onde protestos contra a construção de um shopping center em uma praça podem descambar em guerra civil. Com uma legislação como a SOPA, e um botão para desligar a internet, o presidente Erdogan ficaria mais tranquilo. “Para mim, a midia social é a maior ameaça à sociedade”, disse a autoridade turca, sem se tocar de que é a sociedade que está sendo ameaçada pelo regime, e não o contrário. Foi o povo turco que se mobilizou, compartilhando o fogo da informação, e desmascarando o governo. Está lá, na velha Declaração: “nenhum indivíduo pode exercer poder que não emane da nação, do povo”.

Culpar a midia social por disseminar informação e aglutinar a opinião e a vontade de um povo é de se esperar de regimes “autoritários”. Porém sociedades “democráticas” estão bem atentas aos poder da informação instantânea e, se não podem contê-la, talvez tentam vigiá-la. Veio à tona uma apresentação de powerpoint, supostamente da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, explicitando que o governo tem livre acesso aos servidores da Google, do Facebook, do Yahoo, entre outros. Assim, supostamente, as fotos que você postou do seu gato — bem como todas as opiniões que você emitiu, e tudo o que você pesquisou online — são de conhecimento do governo norte-americano. Durma bem.

Pode ser que o problema não esteja na internet, mas no governo. Ou governos — norte-americano, turco, brasileiro, qualquer um. Pode ser que eles já não se adequem à internet, ao poder que emana do povo circuitado pela internet. Talvez os governos sejam o Ancient Régime, que ficará para trás (pode ser que tenhamos de guilhotinar algumas cabeças). Segundo o líder do “Terceiro maior partido dos Estados Unidos”, Larry Page, do Google, “há muitas coisas importantes e sensacionais que podemos fazer. Mas não podemos porque são ilegais, ou não são permitidas pelas regulamentações. Isso faz sentido. Não queremos que o mundo mude rápido demais. Talvez só uma pequena parte do mundo.” Bem vindos à googleocracia. 

 

 

Esse negócio de livro é para empreendedores digitais

As startups editoriais e os dentes de leão

Publishnews, 23 de maio de 2013

Margaret Atwood

O negócio do livro era simples e caro. Para ganhar dinheiro com livro (ou, no mais das vezes, para perder dinheiro com livro) era preciso antes ter dinheiro — para imprimir, estocar e distribuir ideias na forma de papel. À parte o talento e a obstinação (que nunca terão substitutos eletrônicos), o negócio editorial era um negócio manufatureiro básico, de produzir e distribuir mercadorias.

Entra o digital. Ideias passam a valer muito mais que ativos fixos. Na área dos livros — onde a ideia é o principal insumo — o que era caro ficou barato. Mas o que era simples, ficou complexo. Publicar na era digital é um negócio a se inventar.

A “nova economia” disparou a corrida para achar o novo Zuckerberg e seus bilhões e, a despeito de um ocasional estouro de bolha, empresas, universidades e instituições e governos se esmeraram em criar as condições. Incubadoras, aceleradoras como a 21212, instituições como o Sebrae, programas federais como o Startup Brasil e ainda esforços coletivos, como o que transformou o decadente bairro portuário do Recife em pólo de inovação e tecnologia atestam que nunca houve tão boas condições, e nunca foi tão sexy, ser empreendedor.

O palco está armado para uma startup digital editorial. Mas o que vem a ser isso? E onde isso fez ou faria sentido, em termos econômicos?

O primeiro impulso para lançar um negócio editorial digital é emular o negócio físico. Usar as ferramentas do digital para cumprir as funções do escritório. Assim pipocaram dezenas de sites de autopublicação, oferecendo tornar a cadeia do livro em um processo automático e asséptico. Em um primeiro momento, o selfpublishing atendeu a uma demanda reprimida — dos candidatos a escritor que não conseguiam passar pela peneira editorial. Porém uma profusão de sites concorrentes, a eficiência sem eficácia (livros fáceis de publicar e difíceis de aparecer), o canto da sereia da Amazon, além da iminente descoberta, pelos autores, de que publicar não é só virar livro, são sinais de que a maré da autopublicação está perto de vazar.

Diferente do selfpublishing, há alguns startups editoriais digitais que não deram, e provavelmente não darão, dinheiro. São, em geral, as que tentam “expandir” o livro através de artefatos que parecem ser empregados só porque são agora disponíveis, criando novos problemas, no lugar de resolver os velhos. Como uma companhia de “sonorização” de ebooks, ou ainda uma que automatiza as referências no texto que você está lendo, fazendo brotar uma profusão de videos, verbetes, audios. (Não assista ao video se sofre de ansiedade ou TDAH.)

Algumas startups não quiseram “acrescentar” nada à cadeia do livro, nem tentaram apenas transpô-la para o digital. Apenas empregaram as ferramentas do digital para atender os problemas milenares da publicação. Enquanto escrevia essas linhas, recebi livros comprados em sebos da Paraíba e de Minas Gerais. Compulsei suas prateleiras por meio da EstanteVirtual, veterana (fundada em 2005) que revigorou o imemorial negócio dos sebos. Já o imemorial boca-a-boca foi digitalizado pela Skoob, aberta em 2009, e que ainda tem um jeitão mais de comunidade do que de negócio — o que garante seu sucesso onde outros, com planos de negócios mais robustos, não vingaram.

Se os leitores brasileiros estão bem amparados por iniciativas como a Estante Virtual e o Skoob, ou por novos canais de leitura como a Nuvem de Livros, as editoras brasileiras não têm a mesma sorte. Lá fora há uma corrida para reinventar cada elo da cadeia produtiva do livro. Há sistemas editoriais completos e colaborativos para dar saída em livro, impresso ou digital, como a Pressbook, e há outros que se oferecem como ambiente editorial para publicação de ebooks cinematográficos. Outros sistemas (independentes ou ligados a editoras) propõem “abrir” a edição, trazendo o leitor para o livro antes de ele ser publicado, como forma de apurá-lo e torná-lo mais certeiro no mercado. (As editoras estão atentas ao crowdsourcing, a opinião da massa, que vem revelando os megabestsellers antes deles serem publicados.) Também é confiando na multidão, e no imediatismo das redes sociais, que empreendimentos de crowdfunding publishing (“vaquinha para publicar” em tradução livre) vem prosperando, aqui e ali.

Temos um ambiente acolhedor para empreendedores digitais, temos um mercado que não está consolidado e onde não há empresas dominantes, temos um público consumidor numeroso e que disposto a mudar de hábitos. Então vá em frente. Como disse Neil Gaiman aos editores, “o modelo é um só: tente de tudo. Erre. Surpreenda-se. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Tenha sucesso de modos que jamais teríamos imaginado há um ano, ou há uma semana. Este é o momento de sermos como dentes-de-leão, lançando milhares de sementes e perdendo 900 delas.”

 

 

Amazon é ré, e o mercado não anda para frente

Publishnews, 18 de abril de 2013
Admirável empáfia. Cara de pau, mesmo. No estande da Amazon na Feira do Livro de Londres — um evento depara editores — o destaque era o Kindle Direct Publishing, a ferramenta de autopublicação do grupo, onde um singelo video ensinava escritores a “deixar para lá” os editores e outros “intermediários” e começar a ganhar dinheiro vendendo eles mesmos seus livros (no momento em que escrevo, o video está fora do ar da KDP).
Orbitando pelo estande, os tais “intermediários” cochichavam ressabiados. Os editores estão cada vez mais dependentes da Amazon, mas os laços desse casamento estão cada vez mais apertados. Reclama-se (em off, claro) da política de comprimir os preços, de ficar com arquivos e metadata, das vendas transterritoriais (por exemplo, e-books guatemaltecos vendidos para cidadãos madrilenhos por um terço do preço do mesmo título na Espanha) etc.
Já as lamúrias dos livreiros não têm a ver com condições apertadas para continuar faturando — tem a ver com deixar de faturar. A Associação de Livreiros (por sinal, a patrocinadora da Feira de Londres) estima que 18% das lojas do país fecharam e atribuem a quebradeira à concorrência digital. Para reagir, lançou a campanha “Books are my bag” [algo como, “livros são minha bagagem cultural”], de valorização da livraria. Quem achasse o estande da Associação, em uma das beiradas da feira, leria o manifesto que defende que “ao comprar um livro em uma livraria [física] você participa de uma parte vital de nossa cultura, nossa comunidade”. Sem ter propostas mais concretas (além de uma esquisita plataforma para vender e-books dentroda loja), a campanha apela para valores abstratos como “cultura”, “dignidade”, “independência” etc — que o leitor pode afirmar usando uma bolsa laranja. (A campanha contará com celebridades ostentando serelepes as bolsas por aí).
Bandeiras à parte, a pendenga entre a Amazon e os editores chegou às vias de fato com um julgamento — ou melhor, um grande debate. Um corpo de cerca de 200 jurados — a maioria editores e livreiros — teve que votar se Amazon era “inimiga” do mercado, ou se a companhia de Jeff Bezos era uma força positiva para a indústria editorial.
Do lado da acusação, foi argumentado que a Amazon cresceu tanto que já não está mais concorrendo com ninguém, e sim destruindo a concorrência. Tim Godffray, chefão da supracitada Associação dos Livreiros profetizou: “queremos um ambiente em que praticamente não haja mais livrarias, e que haja muito menos editores e agentes? Pois isso é o que vai acontecer.” Apelando ao juri, o promotor pontificou: “isso será o fim da edição tradicional, como a conhecemos”.
Essa é uma deixa que os advogados de defesa não pegaram. Preferiram argumentar que a Amazon crioue fomentou todo um novo mercado, o digital, que permitiu a expansão de um negócio estagnado, e que a companhia merece os méritos de desbravadora. “A oportunidade não foi criada pela Amazon. Foi criada pela internet. Eles só aproveitaram. Temer a Amazon é temer a Internet”, decretaram.
A peroração pró-amazônica não colou no júri que era composto basicamente de editores e livreiros da velha guarda. O veredito não surpreendeu: 59 pessoas concordam que a Amazon é uma influência positiva no negócio dos livros, contra 117 que estavam magoados demais para falar sobre isso.
Debate ou julgamento, a sentença foi pronunciada. Com a Amazon ou sem ela, não se está ameaçando “o fim da edição tradicional como a conhecemos”. Esse fim já chegou; a edição tradicional já era. Até estabelecermos a nova forma de edição passaremos por um processo violento, como em todas as revoluções. Cabeças rolarão, ou pelo menos setores do mercado perderão faturamento. Só ao fim de tudo, quando a poeira baixar, saberemos se a Amazon foi amiga ou inimiga de quem realmente importa — o leitor.

“O inimigo é recusar-se a entender que o mundo está mudando”

Publishews, 3 de maio de 2013
Veio de uma estátua viva — uma dessas pessoas que, pintadas de branco ou prata, pedem na rua, imóveis — a resposta mais ágil ao impasse da “indústria criativa” sem produtos. Em outras palavras: como um músico se sustenta quando seu público já não compra música no formato comercializável, como um CD? E como o mercado se sustenta quando seu motor, a gravadora, já não consegue transformar a música em mercadoria, vendê-la, promovê-la?
Amanda Palmer pintava-se de branco, subia em um caixote e fingia-se de estátua, esperando que alguém lhe jogasse algumas moedas. Para quem pingasse na sua cuia, dava em troca apenas um olhar agradecido. Como renda, era o melhor que arrancava de seu diploma de belas artes, já que sua ocupação principal, uma banda de “Punk Cabaret”, batalhava heroica nos circuitos amadores. Com a grana curta, a banda dependia de amigos que emprestassem equipamentos, descolassem locais para se apresentar — e que fossem assisti-los. Uma amizade puxava a outra, e, depois de algum tempo, a banda já tinha um público cativo e entusiasmado, grande o suficiente para atrair uma gravadora, e das maiores.
Parecia o começo de uma carreira de sucesso, mas foi o começo do fim. Depois de um mês em turnê, a gravadora veio dizer que 25 mil CDs tinham sido vendidos. E que isso era um fracasso. E que ela agora estava entregue à própria sorte.
Bom para Amanda, porque ela fez o que sabia fazer, o que aprendeu na rua. Comunicar-se com seu público. O Twitter era o novo caixote na calçada, e o Crowdfunding era a nova cuia. Ela falou à imensa rede — de fãs, colaboradores, de gente que lhe emprestou o sofá para dormir ao longo da turnê. Jogou-se na multidão, como faz nos shows, e pediu para que ela a amparasse. Para fazer o novo disco e bancar uma turnê, pediu uns 100 mil dólares. Recebeu quase 1,2 milhões de dólares. Se 25 mil CDs vendidos não eram suficientes para a gravadora, 25 mil fãs pingando na sua cuia digital conseguiram uma receita assombrosa. “Amanda, a indústria está em ruínas! Como é que você conseguiu fazer com que as pessoas te dessem dinheiro para música?”, perguntaram. “Eu não fiz elas me darem dinheiro. Eupedi que elas me dessem”.
“Por muito tempo, os criadores fizeram parte da comunidade. Conectando. Abrindo portas. Não eram estrelas inalcançáveis. Celebridade significa multidões amando uma pessoa, à distância. A internet, e o conteúdo que podemos transmitir por ela, de graça, está nos trazendo de volta. [Apesar do alcance infinitamente maior, a internet] Significa poucas pessoas nos amando, bem de perto. E essas pessoas serem o suficiente.”
O que isso tem a ver com livros? Podemos responder com um genérico (mas correto) “tudo”. Ou podemos ilustrar com um escritor. Um que seja bestseller do New York Times.
Neil Gaiman enfrentou uma plateia de editores na recente Digital Minds, em Londres, dividindo-os entre tubarões e dentes-de-leão. No primeiro caso, os editores serão os profissionais de sempre, fazendo o trabalho da mesma maneira, e sobrevivendo enquanto tudo ao redor evolui, e seus colegas dinossauros fenecem. Se tiverem sorte.
“A indústria editorial existe para criar um monte de coisas que são exatamente as mesmas. O copyright é o direito de fazer cópias. O desafio que estamos encarando agora é o da mudança. Na maior parte da história da humanidade, a questão que surgia com os livros era a de como obtê-los, eles eram objetos escassos. A informação era escassa, os objetos físicos eram escassos, tudo era escasso. O segredo agora é encontrar o sinal em meio ao ruído, é conseguir ser ouvido. Um mundo no qual qualquer um pode publicar qualquer coisa, de excesso de informações, é um mundo no qual já não confiamos em guardiões de portas [os editores] tanto quanto no passado. Nós confiamos no boca a boca, e na sorte, e em nos transformarmos em dentes-de-leão.”
Por dente-de-leão entenda-se: espalhar milhares de sementes pelo ar, perdendo quase todas, para que algumas sobrevivam e gerem um novo mundo. Metáforas à parte, um escritor (e um empreendedor editorial digital) deve espalhar sua obra pela internet, recorrendo mesmo à pirataria, ao “pague quanto acha que vale”, ao crowdfunding, aos novos formatos. O importante é o conteúdo. E o contato com os leitores. “Não descobrimos as pessoas que amamos (ou os autores que amamos) comprando-as. Primeiro nós as encontramos e só depois é que descobrimos que as amamos. Por isso decidi desde cedo que não iria entrar em uma guerra [contra a pirataria]. Prefiro incentivar, apostar no boca a boca.” O verdadeiro autor não quer ser livro, quer ser lido.
muito lido autor de Sandman não enxerga na tecnologia nenhum bicho papão. “As pessoas me perguntam quais são as minhas previsões para o mercado editorial, e de que modo a era digital está mudando as coisas, e eu digo para elas minha única previsão real, que é: tudo ainda está mudando. Eu não sei como será publicar dentro de cinco anos. Qualquer um que diga que sabe provavelmente estará mentindo. Eu não sei, e ninguém mais sabe. O modelo é: tente de tudo. Erre. Surpreenda-se. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Tenha sucesso de modos que jamais teríamos imaginado há um ano, ou há uma semana.”
Não se sabe qual semente de dente-de-leão, entre as milhares soltas pelo vento, vai germinar. Não se sabe o que será dos músicos e escritores, ou o que será do livro. Mas sabe-se que haverá conexões insuspeitas. E surpreendentes. Assisti a palestra TED de Amanda Palmer (de março) pouco depois de vera de Neil Gaiman em Londres (de abril), por puro acaso. Foram tantas as conexões entre as ideias de cada um que me senti compelido a escrever sobre eles. No fim, durante a revisão, uma semente de dente-de-leão voou da Wikipedia: Neil Gaiman e Amanda Palmer são, desde 2011, marido e mulher.

Tudo tem que mudar para que tudo permaneça igual

Grandes editoras tentam ser grandes no digital


Publishnews
, 28 de março de 2013

 

“Estamos vivendo uma espécie de revolução, e uma das poucas coisas que se podem dizer com certeza sobre uma revolução é que, quando se está no meio de uma delas, não se tem ideia de onde e quando ela terminará”, concluiu (não muito conclusivamente) John B. Thompson, depois de quatro anos pesquisando o mercado editorial. Um negócio, que parecia seguir um formato estabelecido há uns duzentos anos, e que está convulsão. Não se sabe aonde essa revolução levará, mas sente-se, que do jeito que está, não dá para levar. Ou não.

 

“A situação hoje é distinta. O que passa a ocorrer quando o livro de um jovem autor traduzido, ou mesmo de um eterno candidato ao prêmio Nobel, vende apenas um sexto da edição? Como fechar essa conta quando o prejuízo aumenta? A conta do fracasso começa a ficar mais cara, e o sorriso nos lábios se mistura com uma ponta de preocupação.” Este testemunho do desconforto do estágio atual do livro vem de Luís Schwarcz, editor extraordinaireque sempre enxergou o que era preciso fazer para manter a Companhia das Letras à frente do mercado, incluindo juntar forças com um megagrupo editorial, a Penguin.

Sintomaticamente, a mesma Penguin achou por bem amalgamar-se, por sua vez, à gigantesca Random House, um grande passo na direção de reduzir o mercado editorial a um punhado de empresas (comoprofetizado). “Reduzir para fortalecer” e “adaptar-se para o mundo digital” foram as justificativas para a constituição do gigantesco “Pinguim Aleatório” (Random Penguin).
Contudo, ao fim e ao cabo, não era para a Random House (-Penguin (-Companhia das Letras)) mexer no seu time. Estão ganhando. Acabam de comemorar o melhor ano de sua história. Um crescimento de 23% nas vendas e de assombrosos 76% nos lucros. Parte do sucesso deve-se à outra cifra: 50 (tons de cinza). Também deve-se levar na conta que quase um quarto das vendas é de livros digitais.
Para a imprensa e o público, o chefão Rebuck discursou: “Foi um ano que serviu para nos lembrar de nossa missão como editores para fazermos a curadoria, com paixão e habilidade, da publicação criativa que informa, diverte e inspira. Nesta nova era digital, há muitos novas avenidas para editoras explorarem, mas devemos sempre focar em livros e em seus autores. Estamos, é claro, inovando na esfera digital, compreendendo e atendendo o leitor […]. Porém qualquer que sejam as oportunidades à frente, em particular nossa fusão planejada com a Penguin, devemos nos lembrar que é o livro — em formato digital ou físico — que continua a ter o poder de transformar vidas.”
Muito bonito, seu CEO. Mas já que estamos falando de “focar em seus autores” e de “inovar na esfera digital” é preciso dizer que nem todos estão contentes. Choveram algumas pedras nas janelas da Random House, mais especificamente em sua empreitada digital, no selo Hydra. A proposta tem lá sua lógica: os livros seriam publicados (só em ebooks) e a receita seria dividida, com a editora recuperando primeiro seu investimento em edição, design etc.
“Hydra oferece um modelo diferente — mas potencialmente lucrativo — de publicação para autores: uma participação no lucro. No tradicional modelo de adiantamento mais royalties, a editora assume todo o risco financeiro, e recupera o adiantamento antes de o autor receber sua parte. Com um modelo de participação nos lucros, não há adiantamentos. Ao invés disso, o autor e editor dividem igualmente os lucros de cada venda. Na prática, somos sócios do autor em cada livro”, argumentou a Random House.
A proposta foi, digamos, inovadora demais, e provocou a desconfiança até de gente que não acredita mais no modelo tradicional, como Cory Doctorow. “Tem todas as desvantagens da autopublicação, e todas as desvantagens das editoras tradicionais — e nenhuma das vantagens de ambas”. As piores críticas foram para a cláusula em que a Random House ficava, de modo vitalício, com o copyright da obra. Essa exigência dá pistas do verdadeiro modelo de negócios da empreitada: a Random House pode estar querendo pescar, para o modelo impresso e tradicional, títulos fazem sucesso primeiro no digital (como foi o caso de 50 Tons de cinza), sem arriscar do seu bolso.
O escritor (bestseller) John Scalzi jogou gasolina na fogueira. Disse que a Hydra, estava “testando as cercas [que separam editora e autor], procurando os pontos fracos” e tentando impor um novo modelo de negócios que, por seu tamanho, seria imposto a todas as editoras. Scalzi recomenda que a tal cerca seja eletrificada, e que cada um continue em seu canto. “Os escritores têm de dizer que isso é bullshit, e se recusar a assinar contratos com editoras com essas cláusulas.”
O barulho foi tanto que a Random House recuou — agora a Hydra dá aos escritores a opção tradicional, de receber adiantamento e royalties.
Enfim. Uma revolução às vezes anda para trás. Talvez seja o caso de reforçar as cercas que separam escritores e editoras e nos agarrarmos aos modelos tradicionais. Ou derrubá-las e enxergar o que está vindo aí, como fez John B. Thompson:
“Não há dúvida de que alguns escritores prefeririam dispensar as editoras tradicionais e/ou se publicar pessoalmente ou usar um dos muitos serviços de autopublicação hoje disponíveis, mas isso não eliminaria necessariamente os editores e editoras. […] Boas editoras são formadoras de mercado: elas constroem mercados para livros em vez de simplesmente torná-los disponíveis. Esse ponto é crucial: nunca foi tão fácil ‘publicar’ no sentido de tornar um conteúdo disponível — basta colocá-lo on-line. Mas ‘publicar’ no sentido de tornar um livro conhecido do público é hoje mais difícil do que nunca, dado o puro volume de informação disponível. Hoje, as boas editoras são formadoras de mercado em um mundo onde é a atenção e não o conteúdo que anda escasso.”

 

De um cérebro a outro

Qual é o negócio das ideias? E a ideia do negócio?

 

Publishnews, 14 de março de 2013

Publicar é transmitir ideias de um cérebro para outro. Seja por meio de um grito, pinturas nas cavernas, poemas cantados, vitrais em catedrais… A publicação parece ter alcançado seu ápice evolutivo no livro. O que pode haver de mais eficiente e objetivo que transferir ideias de um autor para um leitor por meio de uma língua padronizada, por um alfabeto comum, por um idioma estabelecido, tendo o papel ou a tela do e-reader por suporte? O livro é o meio definitivo para transmissão de ideias. Porém, a rigor, um livro não é a ideia, é uma analogia. O alfabeto, linguagem, formato são códigos que emulam e representam as ideias. A transmissão direta de uma ideia, sem analogias e códigos, é apenas um limite teórico que apenas escritores de fantasia gostam de atravessar.

Ou não.

Em fevereiro, dois ratos de laboratório transmitiram ideias entre si. Um estava nos Estados Unidos, outro no Brasil. Nessa “publicação” mútua, não se usou código algum, nenhuma linguagem, sonora ou visual, nenhum condicionamento ou aprendizado. A ideia passou do córtex cerebral de um roedor a outro, pela internet.

Seria divertido, mas dramaticamente precoce, inferir que o experimento dos ratos, conduzida por Miguel Nicolelis, vai, em algum ponto longíquo do futuro, deixar os livros para trás como meio definitivo de transmissão de ideias. “No futuro, as pessoas vão experimentar sensações para as quais não nasceram equipadas para perceber”, disse o cientista. “Ou entender”, pode-se emendar.

Um escritor inventivo como Braulio Tavares até já concebeu um sistema-publicador na forma de uma nuvem ou enxame de memes, pela qual o “leitor” passa a cabeça, e as gotículas chocam-se com o tecido cerebral, impregnando a mente de ideais que formatarão as sinapses para conduzir uma história. Mas essa é apenas uma bela metáfora para o que acontece quando lemos um (bom) livro.

Nos livros/filmes de ficção, mesmo quando os personagens do futuro dispõem de carros voadores e videofones de pulso, ainda é nos livros (geralmente microchips de bibiliotecas) que descobrem as reviravoltas da trama. Ou mesmo as encontram nos centenários livros papel, como em Fahrenheit 451. O ideia de que o suporte é a informação (que o meio é a mensagem etc.) está entranhada até nas imaginações mais estratosféricas.

“Estamos inclinados a achar que o futuro humano dos modos de transmissão do saber depende não tanto da mera natureza técnica dos dispositivos (bits ou papel), e sim da conquista de uma forma suscetível de nos oferecer abrigo contra os perigos da morte do sentido”, disse Muniz Sodré. Este temor da “morte do sentido” cresce na observação de que os ebooks e a digitalização do conhecimento — transformando páginas estanques em arranjos precário e fugidios de elétrons — leva à imaterialidade, ao que não se pode tocar ou conter ou controlar à entropia. “Livro é o que reside entre duas capas”, simplificou Michel Melot, mas, a rigor, um livro eletrônico não tem capas que o limitem, é infindável. A “intangibilização da riqueza” (Ricardo Guimarães) é em última instância o fim do custo — e do valor. O que nos leva — visto que esta é uma coluna sobre o mercado editorial — a perguntar qual será enfim o negócio do livro eletrônico?

A tendência de tratar livros eletrônicos enfatizando o livro e não o eletrônico tem levado a alguns disparates, como imensas bibliotecas erigidas para guardar edições digitais (que não precisam de espaço) onde os ebooks só podem ser emprestados se ninguém os estiver lendo (como se dependessem de um suporte intransitivo). Mais recentemente, a Apple e a Amazon demonstraram intenção de comercializar ebooks “usados”. Esse “sebo digital” (re)venderia produtos que são tão novos quanto o livro originalmente vendido. Se não existe ebooks com marcas de uso — rabiscados, rasgados, amarelados, descolando — então qual seria a diferença entre comercializar tanto o ebook “zero quilômetro” quando um “de segunda mão”? Para o leitor, tirando o preço, nenhuma. Para a editora e o autor, muita. Livros usados não recolhem direitos autorais, e tampouco podem render às editoras os privilégios do copyright. Por sinal, o que é o “direito de fazer cópias (exemplares)” quando ebooks são infinitamente replicáveis, sem custos, sem tiragens?

O dia há de chegar em que enfim nos desapegaremos. Aceitaremos que ebooks são livros, mas não são propriedades. Da mesma forma que nunca os colocaremos em nossas estantes, tampouco reteremos deles mais do que as ideias que eles implantaram em nossa mente. Os negócios do livro digital de futuro — os que sobreviverão ao futuro — serão os que abraçam a transitoriedade do texto “vendido”. Os que entenderão a leitura como um direito, e não uma propriedade. Um serviço, e não um produto. Podem ser administradoras de bibliotecas pessoais (que ofereçam o serviço de manter e dar acesso a livros comprados em lojas diversas); canais que selecionam e sugerem títulos ao gosto do freguês, ou mesmo empreendimentos que tornem a experiência de leitura única para cada cliente, identificando e expandindo os elementos da história que mais lhe agradem. Isso não está distante: a Netflix, sistema de televisão onde o espectador monta a programação, acabou de produzir uma série, House of Cards, em que roteiro, diretor e ator foram decididos estatisticamente — baseando-se nas escolhas mais frequentes dos assinantes. O sucesso da série deveu-se menos a uma equipe criativa e inovadora que à massa de dados do Big Data. Essa maçaroca de dados digeridos, junto com o legião do crowdsource está cada vez mais substituindo o tradicional e lendário “faro” do editor.

Pode ser que os algoritmos venham um dia a substituir o editor, ou pode ser que antes disso já tenham aperfeiçoado a forma de transmitir uma ideia de um cérebro a outro. Até esse dia, o negócio do livro será do editor que se reinventar.

 

 

 

 

A e-ducação que queremos.
E a que teremos.

Iminência de compras do governo impulsiona livros didáticos digitais

 

Publishnews, 31 de janeiro de 2013

 
Em se tratando de livros digitais sou um entusiasta… reticente. Isso quer dizer que reverencio a dimensão das mudanças, mas não embarco facilmente em euforias carbonárias. Porém poucas vezes fiquei tão ansioso para que a leitura digital enfim chegasse quanto na semana passada, quando minha filha (10 anos, 5º ano) entregou-me a lista de livros didáticos. Não somente a blibliografia custa o equivalente a uns 40 livros trade (ou a renda mensal de uma família da classe C), como também implica em um caloroso vai-e-volta entre livrarias (físicas ou virtuais) até completar a relação. Meu consolo foi olhar para meu filho (3 anos, maternal) e me dar conta de que, com ele, dificilmente terei que passar por isso — pelos livros didáticos impressos.

Não é otimismo. Na mesma semana que recebi a lista, um impulso irrevogável foi dado para a adoção de livros didáticos digitais. Mais precisamente o parágrafo 3.1.1 do PNLD 2015. Para quem não sabe, as compras do governo são o aparelho que mantém a indústria editorial brasileira respirando, e o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) é o tubo de oxigênio. Quem trabalhou em editora sabe o que é parar tudo e virar noites para atender às cláusulas do FNDE (Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação). Pois bem, neste ano, as obras didáticas do edital foram divididas em dois tipos de “composição”, sendo a primeira “Obra multimídia composta de livros digitais e livros impressos”.

Quem enfrentar as mais de 80 páginas de editalês vai perceber que esse passo do governo em direção ao digital é cauteloso, mas seguro. A cautela vem do detalhe de que ainda não haverá livros digitais autóctones. Isto é, o FNDE quer comprar eBooks ou apps que venham com um equivalente impresso, mas que sejam uma expansão deste. Devem conter o texto do impresso, e ainda “objetos educacionais digitais” — vídeos, imagens, audios, textos (?), gráficos, tabelas, tutoriais, aplicações, mapas, jogos educacionais, animações, infográficos, páginas web e outros elementos”.

Esta estratégia é mais ou menos como usar suspensórios com cinto. Para garantir. Não se sabe como os livros digitais vão funcionar na sala de aula (vai que falta luz, vai que tem um vírus, vai que dá pau), então é melhor ter o impresso por perto. Como na eleição: não deu no eletrônico, o voto vai no papel. Também é uma estratégia de transição: até a adoção plena do digital, muitos hábitos arraigados terão que ser abandonados, muitos paradigmas vão ter que ser rompidos, então é melhor usar rodinhas.

Porém esse salto mental talvez seja mais complicado para os professores do que os alunos. Mesmo reconhecendo que o acesso ao digital não é assim tão democrático (apesar das compras maciças e algo eufóricas de ereaders pelos governos), os alunos do ensino fundamental têm muito mais traquejo com a linguagem e os equipamentos digitais do que seus professores. E não tem tantos hábitos e costumes para romper. Sem contar que, por conta das transformações recentes, o hiato geracional entre eles é abissal, em termos de tecnologia e poder aquisitivo.

Enquanto as partes — editores, professores e alunos — não encontrarem a linguagem do livro didático digital (sequer se sabe ainda o formato padrão), meu palpite é que vamos pecar pelo exagero. Os primeiros e-didáticos virão com megabytes de penduricalhos, como animações, videos e músicas que “farão vista” mas pouco contribuirão para a fixação do aprendizado, para um público que já tem tendência ao déficit de atenção. Será como um daqueles revivals do cinema 3D, nos anos 1980, quando os filmes tinham ioiôs, pássaroes e murros na direção do espectador. Muito efeito pra pouca história.

Quando passarmos a fase do exibicionismo e compreendermos que a grande vantagem do digital não é reter conteúdo, e sim gerar e distribuir conteúdo, aí sim teremos instrumentos de educação digital de fato (e não emulações de velhas cartilhas). Pense na Microsoft Encarta, e pense na Wikipedia. A primeira tinha a pretensão de ser a mais completa Enciclopédia, atulhada de gracinhas multimida. A Wikipedia queria ser uma forma, aberta e simples, de acumular conhecimento, de forma  comunitária. A milionária Encarta ficou desatualizada no dia que saiu da fábrica. A Wikipedia tem mais de 4 milhões de artigos, só em inglês, constantemente atualizados.

Dar um salto cultural e reconhecer que o livro didático digital é mais que uma versão eletrônica dos livros que conhecemos pode gerar um efeito parecido. Imagine um livro de Geografia ou História que identifique (por GPS) onde o aluno mora e fale sobre sua cidade, atualizando os dados demográficos. Ou que dê instrumentos para que o professor exerça a curadoria de um cabedal de “objetos didáticos” que estão à disposição na internet (dispensando o atulhamento de bytes no arquivo). E que compile a curadoria de milhares de professores e que sugira o melhor conteúdo extra para cada escola, considerando a localização, situação econômica e nível educacional. Ou um livro que permita a cada escola montar seu “sumário” de acordo com o perfil da turma, ou mesmo um para cada estudante (estimulando vocações, adequando-se a perfis culturais, compensando desníveis).

Enfim, em teoria, o digital já nos dá todos os recursos para que a experiência de aprender com um livro didático não precise mais ser padronizada (o mesmo livro para todo mundo) nem padronizante (todos pensando do mesmo jeito).

McLuhan (sempre ele) previu, há quase meio século, que a chegada da era digital permitiria que os estudantes enfim se livrassem do método educacional de “pacote” e passassem para o de “descoberta”. “À medida que a plateia torna-se participante no drama eletrônico total [por meio da internet] a sala de aula pode tornar-se a cena em que a plateia desempenhará um volume imenso de trabalho.” O velho Marshall acertou em muitas de suas previsões (a internet, a pirataria, a mídia social), mas sua previsão de uma didática eletrônica libertadora ainda está para ser cumprido. Se é que vamos, um dia — ou nossos filhos, ou seus filhos —, cumpri-la.

O fim do mundo, por favor

Poder, dinheiro e propriedade por trás das histerias online

Publishnews, 10 de janeiro de 2013

O ano que há pouco se encerrou foi propício a apocalipses. Alguém gritou que, em 2012, chegaria ao fim um ciclo de 5.125 anos no calendário maia, e que alinhamentos astrais sem precedentes anunciariam o fim do mundo. A ameaça rendeu filmes, livros, memes, e entulhou as midias sociais. A disposição das pessoas a acreditarem em fins-do-mundo está relacionada à vontade de que o mundo realmente acabe; demonstra que há um desconforto com a situação presente e uma sensação de que só uma ruptura tão radical quanto uma hecatombe pode abrir espaço para uma nova ordem, que acomode e arranje melhor as novas disposições. E esse anseio por uma nova configuração está tanto nos integrados (que festejam o caos) quanto nos apocalípticos (que pranteiam o fim do antigo sistema).

McLuhan dizia que toda grande mudança de midia dispara uma reação conservadora nas pessoas. Isso ajuda a entender porque muitas pessoas começaram a postar em suas linhas do tempo uma declaração que começava por “Em resposta às novas regras do Facebook, eu declaro que meu direito autoral está anexado a todos minhas informações pessoais…”. A publicação, achava-se, preservaria o declarante da “exploração” comercial do conteúdo postado. Como “base legal”, o texto invocava a “Convenção de Berner” (provavelmente uma má tradução de Berner, em inglês o gentílico da cidade Berna, onde de fato se definiu as bases do copyright) e, ainda, o Estatuto de Roma (um tiro n’água, já que esse trata da instauração de um tribunal penal internacional que não foi adiante justamente porque os Estados Unidos, o foro penal do Facebook, não assinou). Como todo hoax (versão cyber das “correntes”) o texto ameaçava quem não copiasse o texto e mandasse para seus amigos (que logo, infectados, tornavam-se zumbis do copy paste).

Hoaxes muitas vezes brotam apenas da malícia de trolls, que obtêm diversão com o modo virótico pelo qual suas mentiras se espalham. Mas é provável que este tenha surgido com um cidadão genuinamente preocupado com seus direitos, que notou que uma parte significativa (se não a maior) de sua vida está online, e, consequentemente, já não é mais sua propriedade. Este cidadão organizou sua angústia de modo que lhe pareceu juridicamente sustentável. Foi fácil sensibilizar as outras pessoas, porque é geral o estranhamento: pela primeira vez estamos produzindo e consumindo coisas que não temos, que não podemos segurar com as mãos, que não têm limites, pelos quais não pagamos nem somos pagos. Se não temos a posse ou a propriedade, quem as tem? E o que eles podem fazer com isso?

Quando se trata de produtos culturais que efetivamente compramos deles (sim, essa coluna é sobre o mercado editorial) o choque é maior, porque estamos rompendo um hábito que vem de antes dos maias. Se pagamos por uma coisa (livro, música, filme), ela torna-se nossa propriedade. A posse é intrínseca à materialidade — temos estantes para nossos livros, CDs, DVDs. Porém quando falamos do que está — transitoria e precariamente — guardado em nossos smartphones, tablets e computadores não há garantia de que eles sejam nossos. Entre os exemplos, está a famosa “deletada” de 1984 pela Amazon, ou o suposto litígio do ator Bruce Willis com a Apple, exigindo que as músicas no seu iTunes possam ser legadas, como herança, a seus filhos. Estamos passando por um período em que nossos bens culturais não serão exatamente nossos. Passarão de itens na prateleira para serviços, de propriedade para direito. No caso dos livros, isso é um grave câmbio de poder. E também um paradoxo: no momento que temos o poder de acessar qualquer texto, onde e como quisermos, é o momento em que nos submetemos ao poder de outrem (e, muitas vezes, a regras esdrúxulas. Ronaldo Lemos conta que, nas primeiras EULAS do Adobe Digital Edition, constava que os compradores de ebooks estavam proibidos de lerem em voz alta).

Historicamente, “possuir” livros serviu como uma demonstração física de “deter” conhecimento, em última instância, de “poder”. O desdém que alguns cultivam pelos livros eletrônicos ecoa na gritaria contra a invenção da imprensa, há seis séculos. Perguntava-se então: “se todos puderem ter livros, de que valeria o conhecimento”? A importância de um livro dava-se pela sua inacessibilidade (como o segundo volume da Poética de Aristóteles que tantas mortes causou em O nome da Rosa). O livro mais valioso era aquele que poucos poderiam ler ou que — no caso do bizarro manuscrito Voynich — aquele que ninguém conseguiria ler.

Saltando para o século 21, outro apocalipse anunciado tratou do Instagram, uma “rede social fotográfica”. Reagindo a uma novo “termo de uso” que abriria brecha para a comercialização de fotos dos usuários pela companhia-mãe (de novo ele, o Facebook), os membros da comunidade brandiram seus tridentes para afirmar seus direitos (ainda que termo de uso nenhum possa se sobrepor à legislação, que impede o uso não autorizado). De novo a questão: de quem é a propriedade do material daquilo que nós disponibilizamos online? Quem detém o poder sobre o que produzimos? Para fins de histeria, a questão acabou se reduzindo a “eles vão ganhar dinheiro com nossas fotografias”. Uma análise mais serena revelou as verdadeiras questões. O Instagram passou de uma atividade comunitária, livre e gratuita, crescendo a partir do engajamento de seus usuários à uma corporação de um bilhão de dólares dirigida pelo grande titereiro, o Facebook. O sentimento que ficou é que o Instagram era nosso, e passou a ser deles. E eles passaram a ter direitos sobre nós.

Enfim, estamos querendo que os ebooks se comportem como livros físicos, de quem sabe-se claramente a propriedade (“se está na minha estante, é meu”). Ao mesmo tempo, e inversamente, estamos exigindo que uma corporação capitalista comporte-se como uma comunidade fraternal, e não queremos ceder, em troca, nenhum de nossos direitos. Alguma coisa está fora da ordem. Os modelos de ontem não servem para o hoje. Não se encaixam. Precisamos, urgente, de um fim do mundo!

Farinha pouca, muito pirão

A recomposição dos custos editoriais não é para baixar o preço de capa

Publishnews, 13 de dezembro de 2012

 

O mercado de livros digitais ainda não faz cosquinha no faturamento do setor editorial, mas os tártaros que viviam nos ameaçando — Amazon, Apple, Kobo, Google — finalmente chegaram, e em massa. Isso disparou algumas ansiedades nos componentes da cadeia do livro no Brasil, temerosos com a ruptura do seu já precário equilíbrio econômico.

A Associação Nacional de Livrarias incomodou-se a ponto de expedir uma “Carta aberta”, em que ora tenta legislar, ora oferece “sugestões”. Em parte, é uma adaptação da velha demanda pela Lei do Preço Único — que nunca foi atendida nos livros materiais, e que tem menos chance ainda de ser cumprida no caso dos digitais. A primeira sugestão é um “altos” de 120 dias entre a publicação em papel e a digital. Para quem se arvora no argumento de que “menos de um terço dos municípios brasileiros possui ao menos uma livraria”, é um tanto contraditório pregar que em todos os municípios brasileiros tenha-se que esperar quatro meses para ler um lançamento.

Pelo discurso tecnoludista, a carta gerou reações zombeteiras de alguns leitores, que defendiam a gloriosa marcha da concorrência à favor dos leitores, gerando mais livros, mais acesso — e preços menores. Em tréplica mais realista, Milena Duchiade, da veneranda livraria Da Vinci, lembrou que ficar esperando a banda passar não é uma opção, e que “nenhuma cadeia é mais forte que seu elo mais fraco. […] Para as livrarias independentes, não sobram muitas alternativas. Quem souber o que fazer, aceitamos sugestões.”

Porém a tão esperada redução dos preços para a leitura pode não vir. Ou vir, e não ficar por muito tempo. Carlo Carrenho, que tem, além de tudo, um bacharelado em economia, demonstrou que, pelo menos na planilha, há uma chance de reacomodação de cada componente do custo, permitindo preços menores com as mesmas margens. Uma espécie de “tudo tem que mudar para ficar o mesmo”. Mas quem observa o turbilhão do mercado sabe que, na prática, a teoria é outra.

O preço de ebooks é, CQD, uma questão muito mais cultural do que financeira, e o que as editoras farão — com a ajuda mais de estatística do que de marketing — é influenciar um amadurecimento do mercado de ebooks em que os preços e as margens se manterão o mais alto que der. Na recente TOC Frankfurt, em um painel com editores e autores sobre precificação de ebooks, falou-se descaradamente que o preço certo é o máximo que o cliente se dispuser a pagar, e que chegar lá será uma questão de tentativa e erro, de esticar o preço até que o elástico arrebente. Pode-se até observar o fenômeno da variação de preços ao longo do dia, quando as grandes vendedoras espiam-se mutuamente e os algoritmos acham o preço “justo”.

A médio prazo, o quanto pagaremos pela leitura — e mesmo o que teremos para ler — vai depender do equilíbrio que se obtenha entre as editoras (as que se aglomeraram, pelo menos) e os megavendedores que, ao criar o mercado, tentam também criar as regras. A longo prazo, passada a divertida e tensa fase de transição, e superada a insistência de fazer do digital um simulacro do impresso, vamos saber o que enfim será a leitura digital. Que venham logo os tártaros, e que arrasem nossos muros mentais.

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