Ficção

Marcela amou-me por dois contos reais

 

Estou suando. Eles estão me zoando.

— Tira a casaca, ô maluco!

— Olha o cara! De gravata e colarinho. Tá se achando o Zé Bonifácio, aí… Maior fanfarrão.

— Meu irmão, maioridade para moleque é só para o Pedro! Tu acha que é quem, o imperador?

Deixa eles rirem de mim. Querem o quê? Que eu vá encontrar Marcela largado, em mangas de camisa, que nem eles? São uns pirralhos tirando onda de adulto só porque passam a noite no gamão, tomando ginginha e perturbando as negras do chafariz. Eles não entendem. Não têm Marcela. Não vou explicar para esses manés que encontrar Marcela é quase, como se diz? um sacramento. É como ir à missa. Marcela é minha religião.

Hoje vou ter com Marcela. Mesmo que ela não queira. Sua caleche vai ter que parar aqui em frente, no Largo, e ela vai ter que me ver, e falar comigo. E vou convencê-la. Ela vai me deixar fazê-la feliz. Sei que vai.

Ela vai chegar a qualquer momento. Está vindo do Rocio, do teatro. Foi onde a conheci, na noite das luminárias, meu aniversário de dezessete. Foi quando ela me fez homem. Hoje ela não quis que eu fosse ao teatro com ela. Já não me aceita, tem me pedido calma, e sempre que ela me pede calma me dá como um desespero por dentro. A última que ela mandou foi “Querido, nosso amor é grande. Mas o mundo também é”. Eu não que porra é essa de “o mundo também é”, mas sei que ela falou “nosso amor é grande”. É tudo do que eu preciso.

Trago na casaca, no bolso que fica sobre o coração, uma prova do meu amor, para dar a Marcela. É a joia mais bonita da cidade. Um pente de marfim, com três diamantes. Tive que assinar mais uma promissória, mais uma cota da herança de meu pai. Ele vai ficar puto. Mas valeu. Pelo amor de Marcela, perco o pai e  perco o país. Em três dias Marcela estará comigo a bordo de um navio, que nos levara à Espanha, e lá a gente vai chegar na felicidade. E ela vai aceitar.

Enquanto espero. De casaca. É março. E suo.

 

***

 

Desperto suado à beira do monturo suave dos desmazelos de minha amada. São tezes de réptil em lantejoulas, plumas em ramalhete, colossais braços de acrílico, fitilho, gorgurão, velcro, tule, passamanaria.

Dessa algaravia minha Marcela extrai arte, cria vida. Os jornais a celebram, os sites a adulam, as galerias a cobiçam, os homens a cortejam. Mas ela é minha. É.

A arte de Marcela é feita dos despojos, da efemeridade, das cicatrizes da folia. Passado o Carnaval, ela flana pelas ruas da Gamboa, recolhendo pedaços náufragos das alegorias, das fantasias, vestígios da passagem das escolas e blocos. A estes escombros mal dissolvidos pela quarta feira, Marcela dá abrigo. São desolados faraós erodidos, ébrias águias estateladas, atônitas coxas de espuma e seios fraturados em isopor. A todos ela acolhe, a tudo ela recompõe, emprenha significado, engendra vida, gera arte.

 

“Marcela Vivar superpõe camadas de significado sobre o ______da felicidade. Em sua arte tece para si pele, grossa e extensa epiderme? alinhavada com o grotesco, da folia ________ interrompida. Das cicatrizes que o Carnaval deixa na pele do Rio — pele de novo?, Marcela faz-se cidade, faz-se_________.”


— Cadê? Não está pronto, ainda? Preciso disso para hoje, cara! O Xavier tá me cobrando! O catálogo está na gráfica, só esperando isso. Não vacila!

— Bom dia! — respondo, erguendo-me do catre sonolento. — Fique tranquila, vai ficar bom. Deixa só eu tomar um café que eu termino de escrever.

Dá-me as costas, esplêndidas, e se vai, pressurosa e irritadiça. A purpurina que reluz em sua pele ebanizada testemunha que minha amada passou mais uma noite em claro, maquinando sua nova exposição, recompondo seus despojos momescos, criando tesouros com o rebotalho recorrido à ruas, catado no asfalto.

A mim Marcela catou antes do carnaval. No Largo da Prainha, no turbilhão dos Escravos da Mauá. Por sobre a malta de ébrios pegajosos, ela reinava, ama e senhora seminua, rédeas na mão com as quais subjugava três escravos de pela branca e baça (um dinamarquês, um polaco, uma francesa) risonhos sob o cativeiro daquela suprema majestade, de pele negra e bela como as cortinas do palácio de Salomão.

Em meu peito desavisado plasmou-se a adoração por Marcela, desde o exangue minuto em que nela deitei meus olhos inocentes. Tal devia ser, na criação bíblica, o efeito do primeiro sol, a bater de chapa em um bloco polido de basalto. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo, e, se alguma vez contaste dezessete anos, deves lembrar-te que contigo foi assim mesmo.

Veio o carnaval. No terceiro dia fez-me homem e deu-me vida.

Hoje moro — ou, mais exato, vivo — eu seu galpão, rua do Propósito, Gamboa, bairro dos mais excêntricos e desertos em que, na minha meninice burguesa, acharia difícil dar comigo. É meu primeiro cativeiro pessoal, é meu idílio, meu propósito. Do galpão parto com Marcela para o resgate aos náufragos das alegorias; ajudo-a a erguer seus tesouros do lixo; protejo-a de bêbados e proxenetas; trato-lhe as entrevistas e contratos em inglês, francês e espanhol; componho seu blog, redijo seus releases, prefacio, agencio. Em troca de tudo isso, Marcela diz apenas que sou um amor, e me chama de querido. Ama-me à seu modo, à miúdo.

Primeira comoção da minha juventude, que doce que me és. Assim sou feliz.

 

***

Viro mais uma cachaça para criar coragem, mas ela não lava essa agonia. Arde. Ainda não aprendi a beber isso. Vai dar onze horas já. Cada caleche que chega ao Largo, cada casco de cavalo batendo contras pedras vai me dando um aperto, bem no lugar onde guardo o pente, no bolso sobre o coração. Qual dessas carruagens vai me trazer Marcela?

É ela?

É!

Corro para encontrá-la. (Correr não! — não quero parecer desesperado). Tomo as rédeas do condutor. (Para quê?). Suor na testa, a cachaça arranhando a garganta e o pente me pinicando o peito. Digo “boa noite”. (Será que pareceu desesperado? Agressivo?)

Ela desce da caleche, tem o rosto (lindo) corado, está sorrindo (ficou feliz de me ver!). Me descobre (fica um pouco intrigada, mas volta a sorrir: bom sinal). Diz — Querido… folgo em te ver. Mas acho que não marcamos nada hoje….

Agarro seu pulso, vou puxando, entro na taberna com Marcela. Um dos meus amigos, o mais bêbado, assobia. Outros viram a cara, fingem se concentrar no gamão. Um ri.

— Estamos impetuosos hoje, não? Não é assim que se trata uma… uma dama. — reclama, enquanto ajeita o vestido.

— Marcela, nãoseiviversemti. — estou atropelando as palavras, despejando. Não era isso que tinha treinado para falar. (Que vergonha.) — Escute… Olha para mim!

Ela suspira, olha para o lado, puxo pelo braço.

— Em três dias estou embarcando para Europa, para sua Espanha! A terra de teu pai. Tu vais comigo, Marcela! Vou te fazer feliz lá.

Ela puxa o braço para se soltar, eu a puxo e dou um beijo. Sua boca está fechada. Recuo.

— Olhe! Aqui! — Arranco do bolso do coração o embrulho. — Duvida da minha intenção? Uma prova. Vês? A joia mais bonita da cidade. Tome, é sua!

Marcela recebe o saquinho de seda, puxa o cordão lilás, dá uma olhada, meio que o pesa com a mão, enquanto vira o rosto para a parede. E depois olha para mim. E de novo para a parede.

Estou tremendo, suando.

— Vou. Quando embarcas?

— (Ela disse “vou”!) Daqui a três dias (sinto vontade de dar um pulo, berrar).

— Vou.

 

***

Esta noite existe para sagrar minha amada Marcela. A cidade correrá para vê-la, ver sua criação, seus escombros redivivos, sua arte. Ela expõe-se na galeria de Xavier, a mais prestigiosa. Meu dia foi um redemoinho de jornalistas a quem tive que informar, a montadores que tinha que ordenar e a Marcela, a quem tive que manter feliz, por meio de chás de flores e de aleivosias brancas.

Que sublime está Marcela, túnica de açucenas sobre a pele nigérrima, estátua magistral do meu primeiro amor, sublime amor. Tanto contemplo-a à porta, orgulhoso de minha amada, que mal noto o carro que se aproxima.

Xavier desce, dirige-me um aceno ínfimo enquanto apressa-se à Marcela.

À boca de Marcela.

E naquele minuto de março eu acabo.

Deixo minha amada entre açucenas olvidado, recolho-me ao galpão, à escuridão merecida. Ouço o latejar do meu coração até que o carro dispara, com Marcela. Sem mim.

Deito-me ao catre à beira do desmazelo da minha amada. E suave vou voltando a escombro, algaravia náufraga. Cubro-me, cerzo-me uma pele.

Fitilho,

gorgurão,

velcro,

tule,

passamanaria

***

Marcela não chega. Aqui estão mudando tudo. Não é mais para chamar de cais do Valongo. Cadê Marcela? É para chamar de Cais da Imperatriz agora. Estão tapando tudo, cobrindo com granito. Vão botar uma coluna. Vão tirar o chafariz? Marcela não vem? Tudo isso para trazer a italiana do Imperador. Marcela deve estar chegando, eu devia ter ido buscar. Ajudar com as malas. O navio ainda não chegou. Precisavam arrebentar mesmo o cais para fazer outro? E esse bando de gente, porque não saem do caminho?

Onde está Marcela?

Os sinos dobram. De novo? Era para ela ter chegado há duas horas.

Onde está Marcela?

O barco vai partir.

Cadê Marcela que não vem?

Cadê Marcela

Que

não

vem.